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  • Julia Codogno

A PANDEMIA NA INDÚSTRIA DA MODA

Os efeitos da COVID-19 no setor da moda.



O alastro pandêmico


Em março de 2020, começamos a nos deparar com o que viria a ser a maior crise sanitária dos últimos tempos. O novo coronavírus, causador da COVID-19, se espalhou e, rapidamente, descortinou graves e grandes problemas socioeconômicos que se arrastam e perpetuam estruturas constituídas por meio da profunda desigualdade social.


Mergulhados em meio ao caos evidenciado pelo cenário pandêmico, começamos a compreender, ainda com mais clareza, informações que já estavam sendo compartilhadas através de diversas pesquisas realizadas por cientistas e organizações inclinadas às questões socioambientais. Segundo diferentes relatórios, apresentados por tais instituições, o surgimento de “novas” doenças de ordem zoonótica (de origem animal), está intrinsecamente atrelado à forma com a qual construímos e evoluímos nossa sociedade.


Conduzidos por um sistema já fragilizado e, claramente, insuficiente para a maior parte da população, estamos vivenciando o que deve ser apenas a primeira, de tantas outras possíveis pandemias.



De acordo com um estudo apresentado pela Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), nosso comportamento altamente destrutivo, e que somente expõe nossa (não) relação com a natureza, está colocando em risco, também, nossa própria saúde. A pesquisa destaca que a maioria das doenças infecciosas emergentes são impulsionadas por atividades humanas provocadoras de descompassos ambientais.


Submetidos a um sistema exploratório, que vislumbra crescimento infinito num planeta finito e é subsidiado pelo privilégio de apenas um pequeno e seleto grupo de pessoas, percebemos que a maneira com que cultivamos, produzimos, consumimos e descartamos nossos bens de consumo é responsável por desencadear um cenário catastrófico. O aquecimento global, a alta quantidade de emissão de gases de efeito estufa, o aumento do desmatamento e a falta de políticas e agendas direcionadas para conter tais desastres, nos encaminha para um futuro (presente) de poucas possibilidades.


Como compartilhado pela organização Greenpeace, o agronegócio (que não é pop), contemplando a pecuária, bem como a agricultura, é responsável por cerca de 80% do desmatamento no mundo todo. Prática que está atrelada a fatores como: perda de biodiversidade, crescente emissão de carbono, conflitos relacionados à concentração e apropriação de terras, exposição e extermínio de povos originários e assassinatos de defensores ambientais.


Quando direcionamos a lente ao Brasil, percebemos que estamos ainda mais debruçados em tais relações. Acometidos por um processo de radicalização direitista, notado em parte da Europa e dos Estados Unidos, padecemos num Estado orientado por uma ideologia negacionista, inconsequente e que estabelece a economia acima de tudo e de todos.


Em 2020, vimos as queimadas na Amazônia e no Pantanal apresentarem números alarmantes. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) foram identificados cerca de 32.017 focos de calor na Amazônia, um aumento de 60% em relação ao mesmo período de setembro de 2019. Já no Pantanal, o aumento foi de 180% comparado ao mesmo período do ano passado, totalizando 8.106 focos. Dados atrelados a uma prática barata e bastante recorrente em nosso país como forma de demarcação e apoderamento de terra.




Quando falamos de agronegócio, se faz importante lembrar que o Estado também está entre os 5 maiores produtores e exportadores de algodão do mundo. Uma matéria-prima essencial à cadeia produtiva têxtil, mas que também carrega sérias consequências. Mesmo diante de esforços significativos, relacionados à melhores práticas para um manejo mais responsável, uma parte substancial de seu cultivo ainda é baseada num sistema de agricultura rotativa - entre soja e milho, e carece de alta quantidade de agentes químicos, como pesticidas e agrotóxicos. O cultivo de tal commodity emprega cerca de 7% da força de trabalho agrícola, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e movimenta algo em torno de US$12 bilhões por ano no mundo todo - como apontado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA).


Estamos centrados num território detentor de uma das maiores biodiversidades do mundo, extensões hídricas a perder de vista, um clima tropical de causar inveja a muitos e que aprendeu rapidamente a ocupar a posição de Estado colonizado, precarizado e exportador de suas riquezas. Enxergando tudo à sua volta apenas como um mero recurso mediante à exploração.



A indústria da moda


Segundo o report The State of Fashion, divulgado pelo escritório de consultoria McKinsey & Company, em parceria com o Business of Fashion, a indústria da moda é responsável por gerar receita global anual de US$2,5 trilhões. Um mercado que, apesar de super valorizado, se viu incapaz em amparar e proporcionar melhores condições às milhares de pessoas que compõem sua extensa e tão complexa cadeia produtiva.


Tendo suas produções alocadas, preferencialmente, em territórios precarizados, distantes de legislações trabalhistas vigentes e marcados por profundas desigualdades sociais - desencadeadas por, entre outros motivos, deslocamentos permeados pelas mudanças climáticas, se faz responsável pelo desemprego de pessoas desamparadas por qualquer tipo de assistência social e econômica. Locais como: Bangladesh, Índia, Camboja, Honduras e Etiópia, reconhecidos como uma rede de “fornecimento barato”, estão entre os mais afetados durante a pandemia. Regiões onde a pobreza e a vulnerabilidade se tornaram moeda de troca para importantes e reconhecidas corporações que, além de responsáveis por grande parte da poluição do planeta, também são parte do problema que condiciona e explora as pessoas vitimizadas por tal situação.




No Brasil


O Brasil representa a maior cadeia têxtil completa do hemisfério ocidental, sendo capaz de produzir desde as fibras, passando por etapas de fiação, tecelagem, beneficiamento, confecção e varejo até grandes eventos e desfiles comerciais. Dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) revelam que o setor é responsável por cerca de 1,5 milhão de empregos diretos e 8 milhões indiretos, sendo 75% destes, advindos de força de trabalho feminina. Pessoas que dependem da atividade para sobreviver e manter os seus.


Diante de uma crise sanitária sem precedentes, estamos assistindo ao descaso mediante a uma imensa cadeia produtiva composta, em grande parte, por mulheres, que recorrentemente, possuem baixa qualificação profissional ou acesso à recursos básicos e que se veem submetidas a qualquer tipo de trabalho ofertado. A plataforma independente Modefica compartilhou por meio de seus artigos que, na cidade de São Paulo, costureiras migrantes chegaram a receber R$0,20 centavos por cada máscara vendida à mesma prefeitura. Valor superestimado devido à quantidade de pessoas sem emprego e a alta demanda por trabalho ocasionada pelo fechamento de fábricas, ruptura de pedidos e contratos estabelecidos antes da disseminação da COVID-19.


De maio a setembro mais de 4,1 milhões de brasileiros perderam seus empregos (Diário Oficial da União). O órgão também aponta que as atividades têxteis estão entre as 40 que mais sofreram impacto devido à pandemia. Flexibilizações, reduções de jornada de trabalho e salário, terceirizações e diversos outros fatores que só fazem evidenciar tamanha instabilidade do setor.


Nos últimos meses, também acompanhamos uma intensa busca por matéria-prima (que apresenta falta no mercado nacional), o fechamento de empresas de grande e pequeno porte (principalmente), a denúncia de inaplicabilidade de medidas sanitárias e o incentivo à tal retomada econômica pautada fortemente pelo consumismo.



A tendência para 2021


O mesmo relatório citado acima, aponta que fatores como: adequação, enforcamento (ainda maiores) de elos frágeis do setor - como mão de obra e redução de custos, tendem a emergir em horizontes próximos. Mas, a busca por “sustentabilidade” e novas possibilidades para criarmos e trabalharmos com moda, também se farão emergenciais. Ainda não sabemos ao certo se serão por um profundo consenso de necessidade (clara para nossa sobrevivência) ou para a sobrevivência financeira daqueles que se viram acometidos por falta de produtos e viabilizações comerciais.


A urgência por transitar de um modus operandi propagador de tantos problemas e desigualdades, precisa se fazer presente na busca por melhores práticas, no impulsionamento de políticas públicas e no anseio de uma sociedade mais equitativa para todos. E isso só poderá ser possível, segundo a socióloga argentina Maristella Svampa, quando assumirmos as causas ambientais da pandemia, e as colocarmos em agendas públicas para enfrentarmos um dos maiores desafios da humanidade, representado pela emergência climática, por meio de um grande pacto ecossocial e econômico.


Julia Codogno

@juliacodogno


Fontes: ONU | OMS | WWF | GREENPEACE | INPE | OIT | ABRAPA | McKinsey & Company | Business of Fashion | ABIT | Modefica | Diário Oficial da União | Editora Elefante | Fotos: Pexels

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