eco-vegan lifestyle

  • Renata Cabral

BELEZA ESSENCIAL

Da aliança fundamental entre o belo e o sagrado




Os grandes artistas do passado, cientes de que a vida humana acumulava caos e sofrimento, encontravam no processo criativo uma fonte de alívio. Através da bela obra de arte renovavam o olhar e o entendimento, encontrando na arte consolação em meio a tristeza ou afirmação em torno da alegria.

Durante muito tempo, a arte tradicional esteve vinculada à motivadora necessidade da busca pela beleza, descrita como o objetivo principal das linguagens artísticas mais valorosas: da poesia, da pintura, da escultura, ou da música. Assim também era contemplada na arquitetura, que se alinhava às necessidades da vida cotidiana. Considerava-se a beleza como um valor tão importante quanto a verdade e a bondade.


Contudo, o séc. XX estampa a perda da credibilidade e importância da beleza. É quando os novos atores da cena artística focam os seus esforços na busca de perturbar e quebrar tabus morais. Buscam a originalidade a qualquer custo e meios. E, onde havia beleza, encontra-se uma deteriorização que se fundamenta em um conceito. No documentário Why beauty matters?, o filósofo inglês Roger Scruton (1944-2020), autor do livro Beleza, demonstra que “não somente a arte fez um culto à feiura, como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio: nossa linguagem, música e maneiras estão cada vez mais rudes, autocentradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto não tivessem lugar em nossas vidas.” Para o autor, essa maneira inovadora de perturbar por meio da arte, está focada meramente no egoísmo, que visa chamar a atenção para os próprios interesses, sejam eles de lucro, prazeres ou de fama.


Scruton alertou que a perda da beleza estaria atrelada ao perigo de perdermos o sentido da vida.

No plano de fundo, viu-se a estranheza surgir como estrela, apagando o brilho do encantamento que nasce através da beleza. Filósofos de todos os tempos argumentaram que, através da percepção da beleza, moldamos o mundo como um lar. Também passamos a entender sua própria natureza, sua essência espiritual. Ao virar as costas para a beleza, nos encontramos em um mundo rodeados de feiura e alienação. Sim, a beleza importa, e ela não é somente algo subjetivo, mas uma necessidade universal do ser humano. Ignorar esta necessidade. Como demonstra Scruton, nos levaria a um deserto espiritual. A beleza é, em si, um caminho que nos leva de volta ao lar, e essa é uma tarefa deveras sagrada, porém esquecida por muitos artistas modernos.


Para tais artistas, não caberia à arte o papel de redimir o caos da vida moderna. Em vez disso, esse caos deveria ser exposto e louvado, cabendo somente ao autor dizer que determinado objeto é uma “obra de arte”, o único critério admitido e necessário para que, assim, qualquer objeto, instalação ou expressão, fossem considerados como obra de arte. Não tendo mais a arte em um status sagrado, não estando ela mais em um padrão moral e espiritual elevado, ela se torna apenas mais um gesto humano entre outros, não mais significativo do que uma gargalhada ou um grito, desprezando-se a necessidade de habilidade, gosto ou criatividade (Scruton, 2009).


Esqueceu-se de que a aprendizagem humana ocorre através de contrastes. Como enxergaríamos a luz se somente houvesse escuridão? As polaridades são necessárias para a construção do conhecimento e sabedoria. Se o mundo é caótico, há de se haver um lugar para trazer a esperança, ou um modelo, um norte, para onde devemos seguir. Ao estampar o caos, a arte não está trazendo um olhar para o encontro de beleza em um estado caótico. A mensagem que fica é a de que percamos a esperança e olhemos para a realidade colocada, agora, no patamar de obra de arte, que seria o novo e real ponto de chegada.


Este padrão foi criado há quase um século atrás pelo artista francês Marcel Duchamp, que assinou um urinol com uma assinatura falsa “R.Mutt”, colocando-a em uma exposição. Para Scruton, um gesto satírico, que objetivou zombar do mundo da arte e da arrogância que ele contém. Duchamp desprezava a arte, contribuindo intencionalmente para o seu descrédito, pois, como ele mesmo dizia, “essa era uma forma de se livrar da arte, porque dessa mesma forma, muitas pessoas se livraram da religião”. Duchamp foi acatado pelo público com suas próprias avaliações, mostrando que qualquer coisa poderia ser arte, como luzes piscando, latas de excremento ou pilhas de tijolos. Se antes a arte cultuava a beleza, tem-se, agora, um culto à degradação, justificado pela existência de um mundo perturbador, materializado vulgarmente na forma de arte: os instintos sobre a intuição!


A arte necessita de criatividade, e criatividade, é sobre dividir, chamar os outros para ver o mundo como o artista o vê. É por este motivo que vemos beleza na arte inocente das crianças. Crianças não estão nos dando ideia no lugar de imagens criativas, nem estão se afundando em caos. Eles estão tentando afirmar o mundo como o veem, e dividir o que sentem. Algo da criatividade deliciosamente pura das crianças, sobrevive a cada verdadeira obra de arte. Mas criatividade não é suficiente, e o talento do verdadeiro artista, é mostrar o real sob a luz do ideal, e então, transfigurá-lo.


Nos movemos entre formas. A artista Fayga Ostrower (1920-2001) nos mostra em sua obra Criatividade e Processos de Criação, que as formas de percepção não são gratuitas nem os relacionamentos se estabelecem ao acaso. “Ainda que talvez a lógica de seu desdobramento nos escape, sentimos perfeitamente que há um nexo. Sentimos, também, que de certo modo somos nós o ponto focal de referência, pois ao relacionarmos os fenômenos nós os ligamos entre si e os vinculamos a nós mesmos. Sem nos darmos conta, nós os orientamos de acordo com expectativas, desejos, medos e, sobretudo, de acordo com o nosso ser mais íntimo, uma ordenação interior.” É essa ordenação interior que torna a criação, que não se limita à arte, mas que dela deve fazer parte, não uma forma de relaxamento, ou um vômito íntimo e social, mas uma necessidade existencial, necessária e suficiente para fazer o mundo caminhar através de passos mais qualificados.

Em nossa cultura democrática, as pessoas geralmente pensam que é ameaçador julgar o gosto de outra pessoa. Alguns se sentem ainda ofendidos com a sugestão de que existe diferença entre bom e mau gosto, ou de que importa o que você olha, lê ou escuta. Mas isto não ajuda ninguém. Existem padrões de beleza, que tem firmes bases na natureza humana, precisamos zelar por eles e trazê-los para as nossas vidas, como arquétipos de valores. Através da beleza somos lembrados de que temos mais que necessidades práticas, não somos governados apenas por instintos básicos, fisiológicos e de mera sobrevivência como comer, dormir ou reproduzir. Precisamos enxergar que temos necessidades morais e espirituais que precisam ser satisfeitos, tanto quantos as demais necessidades.

Todos sabemos como é ter o sentimento de experienciar um verdadeiro milagre quando somos transportados, por um espanto, por coisas simples, do mundo ordinário, vistas de uma maneira nova, tomados de um modo surpreendente pela experiência espontânea de contemplação.


O raio de sol, a lembrança de uma melodia, o rosto de uma pessoa amada... isso, de repente, assume um significado singular, e nos mostra que a vida vale a pena. Estes são momentos atemporais, em que sentimos a presença de outro e mais elevado mundo.

Desde o começo da civilização ocidental, poetas e filósofos viram a experiência da beleza como uma aproximação com o divino. Platão, escrevendo em Atenas no séc. IV a.C., argumentou que a beleza é o sinal de outra ordem, superior: “Contemplando a beleza com os olhos da alma, você será capaz de nutrir a verdadeira virtude e se tornar amigo de Deus.” Platão era um idealista. Ele acreditava que os seres humanos são peregrinos e passageiros neste mundo, que estão sempre aspirando para além dele, para o eterno reino onde estarão unidos com Deus.


Deus existe, em um mundo transcendente, para o qual nós humanos aspiramos, mas que não podemos conhecer diretamente. Uma forma de vislumbrar esta esfera divina é através da experiência da beleza. Quando vemos beleza em uma pessoa, é porque vislumbramos nela a luz da eternidade brilhado de uma fonte divina, além deste mundo. A bela forma humana é um convite para nos unirmos a ela, espiritualmente, não fisicamente. O que sentimos sobre beleza é como o que sentimos sobre religião: não é um sentimento sensual. Esse é o amor platônico. Essa teoria de Platão é magnífica! Beleza, ele pensou, era uma visitante de outro mundo. Não podemos fazer nada com ela, salvo contemplar sua radiante pureza. Qualquer outra coisa irá destruir sua aura sagrada. A teoria de Platão pode parecer ultrapassada para as pessoas de hoje, porém é uma das mais influentes teorias da história. Durante nossa civilização, poetas, contadores de histórias, pintores, padres e filósofos foram inspirados pela visão de Platão sobre sexo e amor. Muitos poetas e outros artistas tentaram explicar a visão platônica do erótico.


O pintor renascentista Sandro Botticelli (1445-1510) ilustrou a teoria na famosa pintura que mostra o nascimento de Vênus, deusa do amor erótico. Vênus olha para o mundo de um local além do desejo, ela nos convida a transcender nossas paixões terrenas, e nos unirmos a ela através do amor puro à beleza. A musa de Botticelli foi Simonetta Vespucci (1453-1476). O pintor italiano a amou até o fim de sua breve vida, e pediu para ser enterrado a seus pés. Ela era, para ele, a representação do amor ideal de Platão: era a beleza a ser contemplada, mas não possuída.


Platão e Botticelli nos dizem que a verdadeira beleza está além do desejo sexual e da atração instintiva.

Então, podemos encontrar beleza não somente em uma pessoa jovem e desejável, mas também num rosto envelhecido, cheio de pesar e sabedoria, como nas pinturas de Rembrandt (1606-1669), ou mesmo em cenas simples do cotidiano, vivenciadas por pessoas comuns, como traz a obra do ilustre Almeida Júnior (1850-1899). A importância desses pintores está em nos mostrar que a beleza pode ser encontrada em algo corriqueiro, que ela está ao nosso redor e em todas as fases da vida, precisamos apenas dos olhos para vê-la e do coração para senti-la. O acontecimento mais banal pode ser transformado em algo belo, por um pintor que pode ver o coração das coisas.


Enquanto a crença em um deus transcendente estava enraizada na nossa civilização, artistas e filósofos continuavam a ver a beleza do ponto de vista de Platão. A beleza era a revelação de Deus no aqui e no agora. Esta concepção religiosa ligada à beleza durou 2000 anos, mas no sec. XVII a revolução científica começou a semear a dúvida. Scruton nos mostra que a visão medieval aceitou a ideia de que a terra era o centro do universo. Então, Copérnico e Galileu, provaram que a terra gira em torno do sol, e Newton completou o trabalho, descrevendo o universo como um relógio onde cada momento se sucede mecanicamente. “Essa era a visão do Iluminismo, que descrevia nosso mundo, como se não houvesse mais lugar nele para deuses e espíritos, nem para valores e ideias. Não havia lugar para nada além da engrenagem regular que movimenta a Lua em torno da Terra e a Terra em torno do Sol, sem nenhum propósito maior” (Scruton, 2009). No centro do universo newtoniano há um vazio com o “formato de Deus”, um vácuo espiritual, e um filósofo particular buscou preencher este vácuo: o 3º Conde de Shaftesbury (1671-1713).


Para Shaftesbury, apesar da explicação científica das coisas do mundo, parte desse mundo ainda permanecia, de alguma forma, incompleta. Ele acreditava que podemos ver o mundo por outra perspectiva, não buscando usá-lo ou explicá-lo, mas simplesmente contemplando sua aparência como podemos contemplar uma bela paisagem ou uma simples flor.

Sherwsbury trazia a ideia de um mundo intrinsecamente significativo, coberto de um encantamento que não necessita de doutrina religiosa ou explicação científica para percebê-lo, e que essa percepção contemplativa estava ligada a uma profunda necessidade emocional: a beleza não foi colocada no mundo por Deus, mas descoberta nele pelas pessoas. O ideal de Sherwsbury encorajava o culto ao belo, que elevava a apreciação da arte e da beleza ao papel que fora ocupado pelo culto à Deus. Assim, para tal filósofo, a beleza deveria preencher o vazio com o “formato de Deus”, criado pela Ciência. Nesse período, os artistas deixaram de ser os ilustradores de histórias sagradas a serviço da Igreja e passaram a descobrir suas temáticas por si mesmos, ao interpretar os segredos da natureza, por meio da experiência de contemplação, que era o combustível de sua produção criativa.


Mas para Shrewsbury, não era necessária uma obra de arte para nos mostrar a beleza do mundo. Bastava, para isso, a tarefa de olhar para as coisas com atenção, e sentimentalidade. Ele estava nos dizendo: “pare de usar as coisas, de querer explicá-las. Ao invés disso, contemple-as. Assim, entenderemos o que elas significam”. A mensagem da flor, é a flor (Scruton, 2000).

As ideias de Shrewsbury exerceram grande influência sobre o maior filósofo do Iluminismo, Immanuel Kant (1724-1804). Kant argumentou, que a experiência da beleza vem quando abandonamos nossos interesses, quando olhamos para as coisas não com a intenção de usá-las para nossos propósitos, explicar como elas funcionam, ou satisfazer alguma necessidade ou desejo, mas apenas para observá-las e assimilar o que elas são, tirando o foco de si mesmo. Esta é o que Kant descreveu como uma atitude desinteressada, a atitude que permeia nossa experiência da beleza.

De Platão a Kant, filósofos tentaram capturar a peculiar maneira com a qual a beleza nos comove, como um súbito raio de sol, ou o ímpeto do amor. Para Platão, a única explicação de tal experiência, era sua origem transcendente, que nos atinge, como a voz de Deus. Já Kant acredita que experienciar a beleza nos conecta com o mistério máximo da existência.


Através da beleza, somos trazidos à presença do sagrado.

Muitos artistas atualmente olham para o ideal de beleza com desdém, e o substituíram por uma busca de causar estranheza, ao invés de reflexão, deixando de estabelecer uma conexão superior a partir do mundo que nos rodeia. Nasceu o desejo de profanar as experiências do sexo e da morte, representando-as de forma trivial e impessoal, destruindo todo o senso de seu significado espiritual. Assim como aqueles que abandonaram a religião, têm necessidade de zombar da fé que perderam, assim também os artistas, hoje, sentem a necessidade de tratar a vida humana de maneira insignificante e de zombar da busca pela beleza. Para Scruton, esta deliberada profanação é também a negação do amor, uma tentativa de fazer o mundo como se o amor não mais fizesse parte dele, o que traduz a principal característica da cultura pós-moderna, que é uma cultura sem amor, determinada a representar o mundo como não merecedor de ser amado.


Durante muito tempo e por diversas maneiras, os artistas seguiram o chamado da beleza e, assim o fazendo, deram significado ao mundo. Os mestres do passado, reconheceram que temos necessidades espirituais, assim como desejos animais.


Para Platão, a beleza era um caminho para Deus. Pensadores do iluminismo viram a arte e a beleza, como formas de nos salvarmos do vazio da rotina e alcançarmos um nível superior. Ao dar as costas para a beleza, o artista se torna escravo da cultura do consumismo, alimentando nossos prazeres e vícios e os afundando em seu próprio desgosto. Eles não refletem sobre a realidade, mas se vingam dela, e alienam-se nesse processo de desgosto.


Na Carta pública endereçada aos Artistas, o filósofo e Santo Papa João Paulo II (1920-2005), nos afirma, com invejável lucidez, que “a beleza é a chave do mistério e apelo ao transcendente. É um convite a saborear e aproveitar o futuro.” A carta aponta um dever para os artistas: “que as vossas múltiplas sendas, artistas do mundo, possam conduzir todos àquele Oceano infinito de beleza, onde o assombro se converte em admiração, inebriamento e alegria inexprimível”.

A vida e a sociedade estão cheias de dor, dificuldades e de informações conflitantes, desse tal assombro angustiante. O caminho, contudo, não deve ser abraçar este estado de desordem, como se a solução estivesse contida dentro do caos ensurdecedor. Devemos encontrar uma rota de alívio, um espanto restaurador, um oásis no deserto, que nos levará a um ponto entre o real e o ideal, que podem ainda existir em harmonia. Em minha vida, achei esse caminho mais fácil através da pintura.



Renata Cabral

@renatacabral_art

renatacabral_art@yahoo.com.br

https://abre.ai/renatacabral



Para saber mais:

Carta do Papa João Paulo II aos Artistas, 1999, disponível em https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1999/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists.html, acesso em 12/04/2022.


Ostrower, Fayga: Criatividade e processos de criação. 30.ed. – Petrópolis, Vozes, 2014.


Scruton, Roger: Why Beauty Matters?, 2009, disponível em https://vimeo.com/128428182, acesso em 11/04/2022.

21 visualizações1 comentário