eco-vegan lifestyle

  • Murilo Patriota

ECOLOGIA, FLORESTAS E INFINITOS VAGA-LUMES

Aos 12 anos do Bloguesia



A cada dia que passa, a questão ecológica se torna mais urgente. Os europeus sentiram na pele, com temperaturas acima de 40ºC no verão, as consequências do desequilíbrio ambiental. E o nosso país, em especial, com a maior reserva de Mata Atlântica do planeta Terra tem se tornado objeto de interesse mundial. O BNDES instituiu um fundo não-reembolsável, chamado Fundo Amazônia, para captar recursos de projetos voltados à preservação dos biomas e à gestão das florestas. Contra o desmatamento desenfreado e o uso não-sustentável dessas terras, investidores estão pagando para garantir que o ecossistema permaneça cumprindo sua função.


Num relatório do INPE[1] intitulado Futuro Climático da Amazônia[2] (2016), da autoria de Antonio Donato Nobre, o autor apresenta (ou melhor, desvenda, como ele utiliza) cinco segredos da região Amazônica. Em resumo, são os seguintes: 1. A floresta é uma espécie de “distribuidora das chuvas” para regiões que ficam longe do oceano – as árvores, pela sua transpiração, mantêm as nuvens úmidas; 2. Além de transportarem, as árvores ainda são capazes de emitir “sementes” de chuvas, em ar limpo, que podem gerar nuvens maiores e chuvas em abundância. 3. Em situações adversas, como a de uma catástrofe climática, devido à transpiração da floresta e baixa pressão atmosférica, ela consegue sugar a umidade do oceano e transportar mais água (chuva mais uma vez!); 4. “A floresta amazônica não somente mantém o ar úmido para si mesma, mas exporta rios aéreos de vapor que, transportam a água para as chuvas fartas que irrigam regiões distantes no verão hemisférico”: isso explicaria, por exemplo, a região leste dos Andes não ser desértica (como ocorre em outros continentes); 5. Por fim, ela tem a capacidade de atenuar os efeitos de fortes ventos vindos do oceano e responsáveis pela geração de furacões por causa do efeito “dosador, distribuidor e dissipador da energia nos ventos, exercido pelo rugoso dossel florestal”. Em poucas palavras, a floresta produz, irriga, exporta o excedente de ar, e ainda protege a terra de cataclismas – ela combina indústria, comércio exterior e proteção das fronteiras gratuitamente (pois tudo o que é divino vem gratuitamente).


Todos esses efeitos em conjunto fazem da majestosa floresta Amazônica a melhor e mais valiosa parceira de todas as atividades humanas que requerem chuva na medida certa, um clima ameno e proteção de eventos extremos (p. 5)

Debater esses temas e apresentar estudos desta natureza, é fundamental para a compreensão do poder de nossas florestas que são verdadeiras bombas de água naturais, espécie de hidrelétrica aérea, que tem efeitos benignos não só para o Brasil, mas para o continente e o planeta Terra. Recomendo muitíssimo a leitura deste relatório, que traz ainda outras análises sobre os impactos do desmatamento no ecossistema amazônico. Ajuda, por outro lado, a confrontar aquelas espécies de argumento que partem de uma visão unilateral da floresta: a de que são terras improdutivas. Improdutivas para quem? Improdutivas do quê? Estudos e documentos afirmam por A mais B, a importância e centralidade das florestas para o equilíbrio e funcionamento dos ecossistemas. Imaginem, apenas, quantos anos nós ficaríamos trabalhando para criar uma máquina capaz de impedir a furacões na costa do oceano? Ou produtores de carbono em larga escala? E ainda ter de distribuir água para outras regiões? Caminhão? Desculpem, eu fico com a nuvem e floresta.


É por isso que, cada vez mais, o investimento em fundos de apoio à preservação de grandes e gigantescos biomas tende a aumentar exponencialmente, inclusive por estrangeiros – porque estão cientes da importância de biomas como esses para a preservação das temperaturas na Europa. É uma das formas de combate à destruição aliada a ações governamentais e leis rígidas para punir os infratores. Pode-se dizer, sem nenhum exagero, que um crime contra biomas como o Amazônico (e qualquer outro ao redor do planeta) é um crime contra humanidade, não contra o Brasil ou o Estado do Amazonas. Está claro para os líderes mundiais, com o mínimo de sensatez, que o patrimônio da floresta amazônica é um patrimônio da humanidade e das próximas gerações que virão. Cai por terra, com isto, o argumento segundo o qual investimentos desta natureza, com aporte estrangeiro, seria uma espécie de entrega do patrimônio nacional – mas é preciso ficar claro, de uma vez por todas, que este é um patrimônio humano, terrestre. Em caso de devastação, sentiremos também os efeitos da escassez das chuvas.


Aproveito a ocasião, para compartilhar uma experiência que tive há alguns anos. Em agosto de 2016, conheci pela primeira vez uma aldeia indígena na região da floresta amazônica. Esta aldeia ficava nas imediações de Tarauacá, município do Acre, que é cortada pelo grande rio de mesmo nome. Fiz esta viagem com meu irmão, saindo de São Paulo num avião em direção a Rio Branco, e em Tarauacá encontraríamos minha mãe. Chegamos em Rio Branco à noite e apenas dormimos uma noite na cidade, para no outro dia, no primeiro horário do sol, pegar um carro que levava até Tarauacá. Foram 8 horas de carro, de van na verdade, que pegamos com mais umas 10 pessoas; estrada inteira de terra, com muitos buracos e um motorista aventureiro: pulamos bastante! Foram 400 quilômetros: de um lado e de outro não se via mais nada além de floresta, densa, compacta, enorme, sem-fim. Em alguns pontos estratégicos tinham casas que serviam refeições; de resto eu nunca tinha andado tantos quilômetros com tanta floresta ao redor. Sentia que estava prestes a entrar num outro mundo, outra ordenação de espaço-tempo, uma descoberta. Chegamos finalmente em Rio Branco por volta das 18 horas. Escurecia já e, sem muita demora, fomos para o pequeno porto da cidade de Tarauacá pegar a canoa que nos levaria até a Aldeia dos Kaxinawá (um dos troncos da grande família Huni Kuin).


Fomos eu, minha mãe, meu irmão e Diuban, um pequeno-grande homem que tive o privilégio de conhecer, na canoa equipada com um motor atrás. Subíamos o rio Muru. Diuban mantinha o controle do motor, dando a direção à canoa, meu irmão iluminava o rio com uma lanterna na ponta da canoa – estava tudo escuro, era noite completa. A cada 20 minutos, parávamos para tirar a água em excesso da canoa.


Um dos momentos mais belos dessa viagem até a aldeia, foi num certo trecho do rio, onde começam a brilhar centenas e centenas de vaga-lumes, como nunca vi, milhares e milhares (não exagero). Era noite absoluta: cintilavam os vaga-lumes espalhados entre as árvores de um lado e outro do rio, com força e ritmo. Eram vaga-lumes amazônicos! Jamais esquecerei.


No início do percurso tive medo: “Quatros pessoas, com mochila, comida, numa canoa, subindo um rio à noite?” Mas chegamos bem, muito bem. E conhecemos, logo que chegamos, o cacique da aldeia, sua esposa e filhos; um dos pajés; algumas crianças olhando tímidas e desconfiadas. Guardamos nossas coisas e fomos descansar.

Durante a semana que se passou, uma das semanas mais intensas e alegres que já vivi, aprendi muito sobre eles e descobri, em mim, preconceitos que eu acreditava não ter, mas ainda os tinha. O velho estereótipo do índio como alguém que vive “no passado”: enfim, eram meus livros de história que eu carregava na minha mente e nada mais. Descobri e aprendi com eles o olhar absolutamente sensível para o que eles chamam de yuxibu que para nós são apenas plantas e galhos e flores e pássaros. Yuxibu numa tradução direta para o português seria espírito ou espírito encantado ou ainda só encantados. Para eles, toda e qualquer planta, animal, pássaro é um espírito encantado, ramos do Grande Espírito. Outro nome que utilizam com frequência é o de medicina para se referir às plantas: toda planta, em potencial, tem um efeito curativo, mesmo que um jovem ainda não saiba qual seja como o pajé sabe, ele não se refere a ela como “planta”, mas como “medicina”, isto é, “remédio”. O que não surpreende que eles tenham um clarão, dentro de uma mata, que deram o nome de “farmácia viva”; lá encontra-se diversos tipos de plantas para os mais variados males, quem cuida e mantém o local é o pajé Kakiomar.


Eu teria muitas páginas para descrever o que vivi em agosto de 2016 nas proximidades do rio Muru em plena floresta amazônica. Mas gostaria de dizer o seguinte: preservar nossas florestas, para além de preservar o planeta, e todas as razões científicas que apresentei no texto, há razões tão importante quantos essas: existem pessoas vivendo ali, criando seus filhos, cuidando dos animais que vivem na floresta, pessoas reais de carne e osso, que choram, que riem e que sonham e têm muita sabedoria; tudo o que for feito nessas regiões não pode ser à revelia do consentimento dessas pessoas. E uma razão particularmente especial: eu sonho um dia rever os infinitos vaga-lumes que brilhavam sob a noite do rio Muru.



Murilo Henrique Barrantes Patriota

Mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba, com interesse na área de Filosofia Moderna, Filosofia Antiga, Retórica e Teorias da Comunicação. Atualmente trabalha como Analista de Sistemas na M3CASE - Consultoria em ERP.

Contato: murilo-patriota@hotmail.com



Gostaria de parabenizar muito a Taiara pelos 12 anos do Bloguesia e por todo seu trabalho pela causa ambiental na área do consumo sustentável e do veganismo. Que este trabalho possa te proporcionar muitas conquistas e descobertas!


Fontes:

[1] Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. [2] O arquivo pode ser baixado neste link: http://www.ccst.inpe.br/o-futuro-climatico-da-amazonia-relatorio-de-avaliacao-cientifica-antonio-donato-nobre/

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