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  • Danilo Coelho

CUSTO AMBIENTAL DO SISTEMA ALIMENTAR

É possível quantificar o prejuízo causado por setores econômicos que sustentam a dieta à base de produtos animais



A Declaração de Berlim sobre Educação Para o Desenvolvimento Sustentável, promovida pela UNESCO, foi assinada por 161 países, em maio, com o compromisso de garantir que a sustentabilidade seja elemento central no currículo dos nossos sistemas educacionais em todos os níveis, do ensino básico à pós-graduação.


Um elemento importante da educação para a sustentabilidade é o aprendizado sobre o impacto ambiental de nossos atos, escolhas e costumes. Refletir sobre a necessidade de adotar práticas com menor pegada ecológica é imprescindível na busca de um futuro sustentável.


Desde 2006, a partir do relatório “A Longa Sombra da Pecuária”, as Nações Unidas já alertavam para os efeitos nocivos da produção de animais, extensiva e intensivamente, sobre vários fatores que resultam em perda de biodiversidade.


Nos anos 2010, acumularam-se evidências e publicações relevantes que embasaram cientificamente ainda mais várias constatações empíricas: i. a pecuária é inerentemente um grande emissor de gases de efeito estufa; ii. a pecuária é inerentemente intensiva em uso e poluição de recursos hídricos; iii. a pecuária é a principal causa de desmatamento de florestas tropicais no mundo; iv. os alimentos derivados de animais, como carne e laticínios, fazem mal à saúde humana; e v. as fazendas de animais aumentam o risco de pandemias. (1)


A última década foi igualmente importante para a divulgação da ideia de saúde planetária, enquanto uma atitude em direção à vida, sob o prisma do planetismo - princípio que afirma nosso dever em conservar, sustentar e tornar resiliente os sistemas planetário e humano de que a saúde depende, priorizando o bem-estar de todos/as (2).


Empresas de consultoria financeira focadas na sustentabilidade, como a Trucost, passaram a quantificar o custo de capital natural, isto é, qual o custo associado aos danos de um setor econômico à saúde planetária.


Em relatório publicado em 2015 sobre a intensidade da pegada ecológica das principais atividades econômicas do Brasil, mostrou-se que para cada R$ 1,00 recebido pela criação de gado de corte, o setor causa R$ 22,00 de custos de capital natural, isto é, custo ambiental. É o setor econômico com maior pegada ecológica do Brasil. (3)


Se fôssemos repassar o custo de capital natural aos produtores, o preço da carne deveria ser 22 vezes maior do que o atual, a fim de compensar o prejuízo por emissões de gases de efeito estufa, poluição do ar e da água, desmatamento, uso hídrico e resíduos gerados.


A aquacultura é o terceiro setor mais intensivo em custo ambiental: para cada R$ 1,00 de renda, gera R$ 3,9 de custo de capital natural. Entre os seis setores menos sustentáveis no Brasil, quatro estão diretamente ligados ao sistema alimentar à base de produtos animais.




Verifica-se, portanto, que a maior parte dos custos dos setores que produzem boa fatia do que é consumido em nosso prato é repassado para a sociedade brasileira e global na forma de degradação do meio ambiente.


A quantificação da pegada desses setores é importante para demonstrar como o sistema alimentar, grandemente baseado em produtos animais, precisa ser amplamente regulamentado pelo Estado no sentido da transição para um sistema mais sustentável.

Ao gerar muito mais prejuízo do que rendimentos, surge o imperativo de que se criem mecanismos que corrijam as distorções de preço, como o fim dos subsídios e a imposição de altos impostos ambientais.


A Comissão sobre “Dietas Saudáveis a Partir de Sistemas Alimentares Sustentáveis” de The Lancet afirma que “a transformação para dietas saudáveis até 2050 vai exigir mudanças substanciais (...) o consumo de alimentos com carne vermelha e açúcar terá que ser reduzido em mais de 50%.” (4)


O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês) afirma que o sistema alimentar global produz até aproximadamente 1/3 (um terço) das emissões de gases de efeito estufa. No Brasil, o peso do setor pecuarista nas emissões é superior a 60%.


Não será possível atingirmos as metas do Acordo de Paris sem uma mudança substancial do sistema alimentar para o predomínio de uma dieta à base de vegetais. Os consumidores têm um papel importante nesse desafio, mas cabe ao Estado editar leis que garantam a transição do sistema alimentar de maneira mais ágil e socialmente mais justa.


Danilo Coelho, MD, MPP

danilo@danilo.med.br

@danilocoelhomd


Referências:

1) PAIM C.S.; ALONSO W.J. Pandemias, saúde global e escolhas pessoais. 2020: Cria Editora, Alfenas/MG. 83 p.

2) Horton R et al. From public to planetary health: a manifesto. The Lancet, 2014. v. 383: p 847.

3) Trucost. Natural Capital Risk Exposure of the Financial Sector in Brazil. 2015. CEBDS & GIZ.

4) Willett W et al. Food in the Anthropocene: the EAT-Lancet Comission healthy diets from sustainable food systems. 2019. v.393, pp 447-492.

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