eco-vegan lifestyle

  • Guilherme Fioravanti

VEGANISMO E RELIGIÃO

Qual relação desses dois mundos? Podemos nos embasar na religião de maneira coerente para justificar nosso hábito alimentar?



Quando trato de um tema bastante emergente, como o veganismo, que aborda questões éticas e morais, que contesta escolhas aparentemente individuais, que levanta diferentes debates e que de certa maneira pode ser considerado um tanto polêmico, sempre prezo cautela. Agora, quando junto este com um outro que mexe com crenças, filosofias e propósitos de vida e que já foi e continua sendo motivo de tantos conflitos e guerras, o meu cuidado se redobra.


Inicialmente, é importante esclarecer que veganismo NÃO é religião. Para os amantes do sentido literal e definido pelo dicionário, a religião sempre está atrelada à alguma crença sobrenatural, a um poder, divindade ou princípio superior do qual o destino do ser humano depende e que também deve ser respeitado. A interpretação mais romântica da proveniência da palavra religião tem a palavra em latim religare como sua origem e está relacionada ao ato de se religar e reconectar com o divino. A partir deste ponto, já identificamos a incoerência que existe na correlação do veganismo com a religião, pois, no veganismo, não existe nenhuma relação com o sobrenatural.


Apesar disso, a relação de diversas religiões com os hábitos e costumes alimentares sempre se fez presente. Religiões como Adventistas, Hinduístas, Jainistas, Budistas, Hare Krishnas e Rastafáris presam por uma alimentação baseada em vegetais e frutas, prioritariamente vegetarianas. Por sermos um país majoritariamente cristão, onde grande parte dos fundamentos seguidos tem ordem religiosa, priorizo, neste texto, o debate pacífico e as reflexões necessárias mais relacionadas ao cristianismo.


  • “Se Jesus comeu peixe, quem sou eu para não comer?.

  • “Jesus multiplicou os peixes, por que não devemos comê-los?”.

  • “Deus criou os animais para suprimento alimentar do homem”.

  • “Existe categorização na bíblia de animais puros e impuros”.

  • “Somos o topo da cadeia alimentar, não há nada de mau em comer carne”.

Essas afirmações estão bastante presentes nos diálogos de quem defende o consumo de carne e derivados de animal e, nesse texto, iremos refletir juntos sobre esses pontos.




Meu objetivo aqui não é a exegese (interpretar minuciosamente um texto) da Bíblia, muito menos contestar a veracidade das escritas canônicas e suas traduções. Também não quero polemizar trazendo textos apócrifas que provavelmente levariam o debate para um caminho que não desejo. Assim, deixo claro meu cuidado em não deixar a ânsia de provar um argumento, invalidar um texto, que como de praxe tem por objetivo motivar a reflexão e fazer com que o leitor conteste suas crenças e a si mesmo modificando possivelmente algo em sua vida, por livre espontânea vontade. Para torná-lo menos denso, deixarei as citações do Livro Sagrado no final do texto para a consulta do leitor que se interessa mais por essa especificidade. Também peço que ateus e agnósticos se atentem a racionalidade das argumentações e não à discussão da existência ou não de Deus ou seus Profetas.


Existem alguns argumentos bastante frágeis, prós e contras o consumo de animais que são os mais utilizados nesse debate. Os prós referem-se a ideia de Jesus ter comido peixe [i] que está presente em apenas um versículo e em um só dos quatro evangelhos de Lucas, o fato Dele também ter oferecido o peixe como alimento em outras passagens [ii] e, por último, a multiplicação dos pães e peixes [iii]. Os argumentos contra também são frágeis, pois baseiam-se na ideia de que o momento histórico vivido por Jesus culminava na necessidade do consumo. Porém, é sabido que, naquela época, Essênios e alguns grupos Judaicos tinham hábitos vegetarianos e, além disso, para os crentes, Jesus nunca demonstrou dificuldade em ir contra hábitos e costumes da época que considerasse errado, e não faria sentido dizer que apenas nessa ocasião ele consentiu com um hábito que considerasse injusto.


Nesse momento, é necessário tomar cuidado para evitar anacronismos, onde se atribuem àquela época atributos e ideias que são atuais. Na época não existiam refrigeradores ou grandes tecnologias de conservação da carne, a pesca era a principal atividade monetária (muitos dos discípulos de Jesus eram pescadores), não existiam abatedouros como os atuais, muito menos a produção em massa de carne e toda a crueldade na maneira de criar e abater os animais de hoje em dia.


Pensando pelo ponto de vista antropológico, é incoerente justificar o consumo de animais por Jesus tê-lo feito, sem considerar o que ele também fez e não necessariamente seguimos fielmente, como por exemplo os jejuns praticados [iv] e o principal de todos quando amou ao próximo independente de qualquer coisa. Na máxima: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39) não existe nenhuma especificação que não deveríamos incluir os animais. Então, me questiono: Será que não é mais fácil justificarmos um hábito que temos, que nos dá tanto prazer e que temos dificuldade em deixar, como o de comer animais e derivados ao invés de nos perguntarmos se é realmente necessário todo o sofrimento que causamos aos animais simplesmente pelo prazer que esse hábito nos proporciona?


Neste momento, apresento uma série de questionamentos que me fazem refletir sobre as condutas de Jesus e os ensinamentos de diversas religiões que poderão auxiliar e fundamentar racionalmente sua consciência em relação a esse tema.


Se Deus é perfeito, será que faria sentido criar seres tão incríveis e sencientes (capazes de sentir emoções e dores) simplesmente para nos alimentarmos deles?


Por que esses seres, que têm tantas semelhanças a nós, inclusive biológicas, que formam vínculos e famílias, que têm todos os sentidos do olfato, visão, audição etc. como nós, seriam tão complexos apenas para que pudéssemos matá-los e comê-los?


Não seria mais fácil acreditar que a existência das mais de 300 000 plantas e dos vegetais (que vale frisar, não têm a capacidade de sentir dor) deveriam ser o suficiente?


Será que Jesus, com todo seu amor e doçura, entraria em um abatedouro, saberia de tudo o que acontece e como as coisas são feitas com os animais, nos aplaudiria e nos diria que não tem nada de errado e que podemos prosseguir com essa conduta?


Será que podemos comparar uma época, em que a necessidade do consumo para subsistência com os dias atuais onde nosso consumo se priva principalmente ao nosso apego ao paladar?


Aprofundando mais ainda, será que seremos julgados “pecadores” se adotarmos uma atitude compassiva diante dos animais?


Será que está errado não querer fazer o mal ou causar algum dano ou dor a nenhum tipo de espécie, e que seremos julgados erroneamente por isso?


Existe qualquer frase ou afirmação na Bíblia ou em outros textos que crucifica, proíba ou trate como pecado o veganismo e vegetarianismo?


Será que um Deus compassivo, justo e perfeito consentiria com todo nosso modo de criação, abate e uso como mercadoria dos animais?


Será que não estamos buscando, a qualquer custo, alguma justificativa para o consumo que conforte nossa consciência por sabermos que no fundo dos nossos corações não concordamos, gostamos nem queremos ver a dor de um ser inocente?


Será que seríamos capazes de abater os animais, como na época de Jesus com nossas próprias mãos e não terceirizar esse serviço?


Por que, para o que nos convém, usamos a história como justificativa, mas com toda nossa capacidade de questionamento do que é certo e errado ignoramos o que realmente acontece para que nossa carne chegue ao prato?


Se não estou fazendo nada de mal a nenhum ser, prego a compaixão a todos os animais sem especismo (ideia de tratar diferentemente os animais de acordo com sua espécie: “amo o cachorro, mas como o porco”), se minhas escolhas podem influenciar positivamente na minha saúde e no meio ambiente, por que não adotar uma dieta vegetariana?


A ideia de um Deus benevolente compassivo e amoroso é a que, a meu ver, faz mais sentido. Um Deus que não cria por acaso, que prega o convívio harmônico de todas suas criações. Se somos os seres mais inteligentes e superiores da Terra, por que ao invés de demonstrarmos essa tal superioridade com atitudes de respeito aos animais e ao planeta que habitamos, simplesmente nos damos o direito de dominar, controlar e destruir nossos “inferiores”?



Esse ideal de um mundo respeitoso aos animais também está exposto na Bíblia e, no final desse texto, apresento 10 passagens bíblicas bastante favoráveis ao veganismo [v], que podem satisfazer até aos mais fiéis a escrita Sagrada.


Para finalizar, gostaria de relembrar Buda, Gandhi, Francisco de Assis e Jesus, figuras tão importantes para religião e para nossa história, símbolos de compaixão e amor, grandes exemplos para humanidade, que viveram uma vida bem distante das churrascarias e da contemplação ao deus estômago, e nos mostraram que


“sobre a terra, onde tudo é relativo, a única verdade definitiva, que, inclusive, se sobrepõe à ação inexorável do tempo, é a verdade absoluta do amor” (vi).

Que esse amor se estenda a todas as criaturas criadas por Deus.


Espero que esse texto tenha de alguma maneira te provocado reflexões, e mesmo que não tenha gostado, pense que, no mínimo, serviu para que conhecesse o significado de algumas novas palavras.


Guilherme Fioravanti

@guilhermefioravanti


-------------------- [i] Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel; O que ele tomou, e comeu diante deles. (Lucas 24:42,43). [ii] (Mt 14:13-21; Mc 1:16-20; 6:30-44; Lc 5:1-11; 9:10-17; Jo 6:1-13; 21:1-14). [iii] E, tomando ele os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, e abençoou, e partiu os pães, e deu-os aos seus discípulos para que os pusessem diante deles. E repartiu os dois peixes por todos (Marcos 6:41). [iv] O Senhor Jesus não só o praticou, como deu a sua aprovação ao verdadeiro jejum. O que ele reprovou foi a atitude hipócrita dos fariseus (v.16), que o praticavam com o mesmo propósito de suas orações em público: para serem admirados e reconhecidos pelos homens (Mt.6:16-18). [v] E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi (Gênesis 1:29,30). O lobo viverá com o cordeiro, o leopardo se deitará com o bode, o bezerro, o leão e o novilho gordo pastarão juntos; e uma criança os guiará. A vaca se alimentará com o urso, seus filhotes se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará perto do esconderijo da cobra, a criança colocará a mão no ninho da víbora. Ninguém fará nenhum mal, nem destruirá coisa alguma em todo o meu santo monte, pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar (Isaías 11:6-9). Ouve tu, filho meu, e sê sábio, e dirige no caminho o teu coração. Não estejas entre os beberrões de vinho, nem entre os comilões de carne (Provérbios 23:19,20). Porém eis aqui gozo e alegria, matam-se bois e degolam-se ovelhas, come-se carne, e bebe-se vinho, e diz-se: Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos. Mas o SENHOR dos Exércitos revelou-se aos meus ouvidos, dizendo: Certamente esta maldade não vos será expiada até que morrais, diz o Senhor DEUS dos Exércitos (Isaías 22:13,14). Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações (Isaías 66:3). De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? Diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. (Isaías, 1:11-12). O justo tem consideração pela vida dos seus animais, mas as afeições dos ímpios são cruéis (Provérbios 12:10). Há sangue em suas mãos; lavai-vos, purificai-vos; tirai de diante dos meus olhos a maldade dos vossos actos; cessai de fazer o mal (Isaías 1:16). Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó (Eclesiastes 3:19,20). Não matarás (Êxodo 20:13). Obs. Não exclui os animais. O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras (Salmos 145:9). [vi] Carlos A. Baccelli – Irmão José (Livro Vigiai e Orai) Referências: Revista Betim Cultural. Disponível em: https://medium.com/@betimcultural/veganismo-n%C3%A3o-%C3%A9-religi%C3%A3o-66c87e1ce63d Revista Veja. Disponível em: https://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/religiao-vem-de-reler-ou-religar/#:~:text=No%20entanto%2C%20j%C3%A1%20na%20antiguidade,%2C%20apertar%2C%20ligar%20bem%E2%80%9D Rafael van Erven Ludolf. “Jesus comeu peixe?”. Disponível em: https://eticaanimalespirita.org/2020/04/24/jesus-comeu-peixe/ Centro de Pesquisas Ellen G. White. “Jesus comeu carne ou peixe?”. Disponível em: http://www.centrowhite.org.br/perguntas/perguntas-e-respostas-biblicas/jesus-comeu-carne-ou-peixe/ Bíblia Online. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/acf/busca?q=alimento+animal

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